Ontem à noite, já estava eu a
agradecer tudo o que tenho na minha vida, quando me invadiu a imagem daquela
saia de fada, de cetim rosa, com estrelas de papel de prata coladas, do chapéu
pontiagudo feito de cartolina forrada do mesmo cetim rosa e da varinha com uma
estrelinha colada na ponta de uma grande agulha de tricot…
Tinha 4 ou 5 anos, não mais e era
tempo do festim escolar da Carnavalada …
No momento em que esta imagem me
atravessa o espírito vem com ela uma profunda sensação de alegria e bem-estar,
afinal aquela vestimenta, que fez de mim fada por um dia, era toda ela um acto
de amor…
Ontem, vi-me naquela noite de
véspera carnavalesca, radiante, de volta da minha mãe a examinar, com este ar
expectante e ansioso (que ainda hoje me caracteriza J ), tudo o que ela fazia para
conseguir costurar-me numa noite aquela saia.
Não vi muito na verdade, porque
já era noite, a minha mãe e o meu pai tinham trabalhado todo o dia e para mim
estava perto da hora de ir dormir!
Mas lembro-me da fita métrica, à
volta da cintura e de cima a baixo e de baixo para cima e de achar tudo aquilo maravilhoso
e mágico!
Apesar da tenra idade eu sabia
que aquilo era um acto de magia! Estava certa!
A minha mãe encarregou-se da saia
e o meu pai, que sempre foi um verdadeiro artista dos trabalhos manuais,
concebeu o chapéu alto e pontiagudo, digno de uma fada à séria.
Desse não me lembro dos
preparativos, mas calculo que também me tenham medido a cabeça J.
Conhecendo-me tão bem como conheço,
nessa noite devo ter-me deitado com uma excitação endiabrada! Não confirmei
isso ainda mas posso adivinhar a resposta.
O que me lembro mesmo é de me
sentir muito feliz a ver aquela grande azáfama de final de dia por causa de uma
coisa: a minha vestimenta!
Bem ou mal lá devo ter adormecido
porque no dia seguinte acordei cheia de energia (lembro-me bem) e imediatamente
a minha mãe me mostrou a fatiota, perguntando se gostava…
Ainda hoje sinto uma luz
aquecer-me por dentro quando penso nesse momento… Estava tudo lindo…
A sainha rosa estendia-se até aos
pés, tinha um elástico cosido na cintura que perfeitamente se ajustou a ela,
tinha estrelinhas coladas feitas de papel de prata que a salpicavam de brilho…
O chapéu, o que outrora fora uma
mera e simples cartolina era agora um cone alto e pontiagudo que ousava rasgar
o céu e perfeitamente forrado com o mesmo tecido de cetim rosa!!!
E para finalizar, num acto de
puro empoderamento, foi colocada na minha rechonchudinha mão direita, a
varinha! Uma agulha de tricot, com uma estrela de papel na ponta, perfeitamente
recortada e cintilante. Achei uma imensa graça aquele pormenor. Divertido
mesmo!
Vi a alegria na cara dos meus pais
quando saí de casa para ir para a escola, naquele momento de revelação da fada
ao mundo e, acreditem ou não, senti o peito cheio de gratidão por tudo aquilo!
Percebi instantaneamente que os
meus pais tinham feito todo aquele trabalho durante a noite, roubando de si
horas de sono, para me darem um sonho…
E devo agora dizer-vos que nesse
dia deram-me muito mais que o sonho, que um vestido de fada representa para uma
menina de 4 ou 5 anos… Nesse dia o que eu gostei mesmo foi de sentir a
dedicação e o amor que tinham feito tudo aquilo ser possível. Sim, eu senti
isso. Essa energia avassaladora…E isso fez brilhar a menina fada!
Eu era a fada mas tinham sido os
meus pais a fazer magia!! J
Magnífica visão a de ontem à
noite… estava meio esquecida ou pelo menos há muito que não me visitava o
consciente. E deixou-me tão feliz!
Percebi logo após este sentimento,
que desde então nunca mais eu largara a fada e minha varinha de condão… Os meus
pais tinham-me abrilhantado e empoderado para sempre…
Aquela noite deixou em mim marcas
profundas que posso resumir assim: AMOR e GRATIDÃO.
Existiu em tempos uma fotografia
tirada na escola nesse dia que, modestamente – posso presumir – retratou a
minha alegria dentro daquele vestido.
Mas o melhor álbum é o que
desfolho com o pensamento e esta memória está cristalizada em mim. De tão forte
não corre o risco de ser perdida.
Grata aos meus pais, pela lição.
Bem Hajam.
Maura
Eu é que agradeço por tudo, por existires, por seres quem és, sim minha fada, o amor move montanhas, pessoas, animais, o mundo!!!! Obrigada, beijinho grande do tamanho do mundo.
ResponderEliminarEu sabia!! Uma fadinha... Cruzou o meu caminho!!
ResponderEliminarObrigado pelo agradável e feliz pedaço da nossa infelizmente breve história coletiva. Procurei e encontrei facilmente esta pasta no arquivo da memória e talvez pelo pó dos anos a vista foi-se-me turvando à medida que folheava os sentimentos, ao ponto de até as mais cintilantes estrelas se tornarem difíceis de ver...
ResponderEliminarDesejo-te para todos os dias um Natal !