segunda-feira, 2 de maio de 2016

SPIRIT INTO MATTER

Entre o corpo que habito
e a alma que me rege
há um mundo de polaridades
que desafiam a minha existência.

Entre o oásis e o deserto
vivo no equilíbrio certo,
e de pés assentes no chão
tenho no céu a minha conexão.

Existo aqui e ali
e todos os dias
no reino de cima ou no reino de baixo
eu entrego-me a mim…

A história escreve-se
a cada linha de tempo
numa circunferência infinita.
onde hoje aqui sei
que amanhã lá existe.

Porque entre o corpo que habito
e o espírito que me rege
existe um universo de possibilidades

que suportam a minha existência.

Namasté

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Há sítios onde vamos sozinhos.

No meio de um acalorado arguir de pretensas razões, vulgo, troca acesa de pontos de vista opostos, vulgo mais ainda, conversa discordante a roçar a discussão, dei por mim a chegar a uma sábia conclusão !!!
Assim para começar ainda achei estranho tal clarividência logo a meio de um processo inequivocamente doloroso, mas logo percebi: a minha mente tinha feito um atalho!
Na verdade o atalho mais não foi que a consciencialização a frio da “Lei da Acção e Reacção”, aquela que Newton descobriu há uns séculos atrás e que determina que para cada acção existirá uma reação oposta e de mesma intensidade. 
Considerando que esta lei só é aplicável à esfera material e não interpessoal (Newton deve tê-la descoberto literalmente a meio de uma batalha campal) talvez seja melhor aqui invocar a Lei da Causa e Efeito, essa sim mais a propósito das relações intra e interpessoais e que diz basicamente a mesma coisa mas aplicável a condições/situações, ou seja, condições específicas inevitavelmente levam a resultados correspondentes.
Pois bem, conversa vai, conversa vem e a dada altura quis testemunhar aquilo de fora. Fiz esse exercício mental e aí, nesse instante deu-se a clarividência: havia um movimento “looping” naquela interacção. Ou “boomerang” ou círculo-vicioso…Qualquer uma das imagens serve para ilustrar a coisa…
Tanto eu como o meu interlocutor estávamos a reagir emocionalmente, baseando-nos num padrão estímulo-resposta, sobre o qual nenhum de nós estava a ter controlo.
O meu comportamento e postura tinham tocado numa âncora inconsciente do meu interlocutor despoletando nele uma resposta negativa.
Âncoras inconscientes são aquelas âncoras emocionais que todos nós temos e que, tal como o nome sugere, de tão fundadas não nos deixam mover dali. São emoções que temos associadas/agregadas a determinado comportamento de outrem ou a um determinado evento externo.
Esse comportamento ou evento está gravado e arrumado na mesma gaveta da emoção que ele despoleta, pelo que, sempre que se regista o primeiro (comportamento/evento externo) somos tomados pela emoção que lhe está inconscientemente associada.
Uma vez feita a faísca a emoção negativa manifesta-se!
Pois bem, eu tinha com um determinado comportamento, accionado um desses “trigger points” (gatilhos) do meu interlocutor, o que desencadeou uma resposta negativa, agindo de uma determinada maneira...Maneira essa que seguidamente accionou um dos meus “trigger points”, sucedendo-se a minha reacção negativa ao estímulo apresentado.
Aqui está o efeito “looping/boomerang ou vicioso”.
1º estágio – A resposta do meu interlocutor a qualquer coisa no meu comportamento.
2º estágio - A minha reacção àquele inexplicável humor. Inexplicável porque não tinha ideia de que o meu comportamento tinha iniciado aquele processo emocional.
Portanto, agora estou a reagir à reacção dele..
E adivinhem: A pessoa vai reagir à minha reacção!
O meu interlocutor não conseguiu identificar que estava a reagir em função do meu comportamento, ficando irritado e eu passei a estar irritada também porque o comportamento da pessoa (expressões faciais, postura e palavras) tocou cá o sino que diz que aquilo é “desconsideração” e, por sua vez, accionou o meu gatilho. Disparei.
Não fosse a clarividência "Newtoniana" e o círculo tinha-se perpetuado por mais uns quantos tiros certamente…

A única maneira de sair do círculo é trazer a emoção à consciência e perceber friamente que, de parte a parte, a coisa se deu porque houve emoções incapazes de ser contidas, que foram instantânea e automaticamente desencadeadas pelo comportamento de outrem.

Âncoras emocionais não trazidas ao consciente podem ser seriamente nefastas em todas as relações que construímos! Tudo espremido é este o sumo.

A melhor maneira de dissolver estas âncoras é mesmo despertar para a sua existência em nós porque uma vez conhecidas elas perdem grande parte do seu poder e influência (mais uma vez a dita lei da causa-efeito).

Vale a pena então pensarmos que âncoras temos e a que comportamentos/factos ou eventos externos estão associadas, lembrando-nos que só nós somos responsáveis pelas nossas emoções a cada momento e a cada circunstância.

Por mais voltas que demos, nós - e  apenas nós - somos responsáveis pelos nossos meandros. E no que toca às nossas emoções, (com ou sem Newton à mistura) há sítios onde vamos sozinhos.


Namaste.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Olá, bom dia e o processo de osmose.

Dizem de mim que sou uma pessoa aberta, daquelas que facilmente convida para si os outros. Daquelas que abre portas em vez de janelas, daquelas que conversa e faz amizade com qualquer estranho.
Verdade é que não posso negar isso. Não tenho como!
Podia relatar episódios sem fim de conversas que tive com ilustres desconhecidos (até então), pessoas com quem me cruzei na casualidade (ou talvez não) da vida.
Isso vale-me não só muitos, mas bons amigos.
Uns terão sido conversas de passagem, outros tornaram-se objecto de interacção habitual.
Seja como for, não saberia estar na vida de outra maneira porque os outros são o meu elo com o mundo.
Deve ser por isso que amo pessoas. E tenho um orgulho imenso em senti-lo e dizê-lo, porque para mim as pessoas são o princípio e o fim de tudo…
Há uns anos atrás deixei o prédio onde vivi 3 anos (um record, acreditem…) e foi para lá viver a minha mãe. Passado um mês de lá estar a minha mãe já conhecia meio bairro, não por ela, mas porque meio bairro tinha perguntado por mim…
Disse-me, como frequentemente diz: “Tu realmente falas com toda a gente!! Desde a senhora da limpeza do prédio, a vizinhos de todos os andares, ao sr. do café, às senhoras que passeiam os cães no outro quarteirão e ao senhor que varre a rua….!”
A mim espanta-me o contrário!
Como se poderá viver 3 anos no mesmo sítio sem conhecer/saber de quem nos rodeia?!

Sim, faço questão de cumprimentar e mostrar o meu melhor sorriso à senhora que limpa o “meu” prédio e a “minha” porta, ao senhor que  me serve o café ou o pequeno almoço ao fim-de-semana no café da esquina, à senhora que se cruza comigo quando os nossos cães se cheiram mutuamente, ao senhor que me ajuda a manter o meu bairro limpo…

Do bom dia e do sorriso aos dois dedos de conversa vai um passo…e é nesse passo que construo desinteressadas relações.
São desinteressadas só num certo sentido, porque, na verdade, interessam-me as pessoas.
Não é que me interesse a vida delas, mas interessam-me elas. Interessam-me as suas histórias, as suas vivências, as suas motivações, as suas dificuldades, as suas visões, o seu ser…
Interessa-me o que elas me ensinam, o que aprendo com elas sem saberem, o que deixam em mim involuntariamente, as referencias que crio por identificação ou contraposição.
Interessam-me sempre, mesmo que sejam muito diferentes de mim!
Sim, interessa-me o que sente alguém que passa por mim triste enquanto caminho para despejar o lixo, interessa-me a felicidade de um vizinho que canta à janela quando saio do carro, interessa-me a velhota de mercearia que vai deixar o negócio porque a renda é cara, interessa-me a senhora que vai passear o cão e que alimenta todos os gatos errantes dali… Interessa-me sim. Os outros importam-me. A qualquer lado que vá.
Relaciono-me transparentemente e sem medos. Não temo nada nas pessoas, nada nelas me assusta. Não me assusta os seus julgamentos, a sua maneira diferente de mim, não me assusta estarem sujos ou limpos, ou não saberem falar elaboradamente, ou serem de outra cultura, ou terem intenções que extravasem o meu interesse por elas.
Portanto, à partida, somos – e seremos – duas pessoas, dois semelhantes. Sem muros nem obstáculos.
Talvez esta maneira receptiva de estar tenha gerado em mim uma habilidade para conhecer as pessoas ou talvez essa habilidade tenha nascido comigo. Verdade é, que sinto que tenho a capacidade de as entender, de as sentir como são, de estar nelas, de ser quase elas por instantes, sendo o que elas são, sentindo o que elas sentem. De me meter na posição delas, sem nunca sair de mim e do que sou.
Um estado de osmose que confesso não saber explicar bem, muito mais intuitivo que racional.
Com o desenvolver da minha dimensão espiritual adquiri até uma nova sensação: Elas são uma extensão de mim. Como que um eu fora de mim. Talvez um eu numa outra versão!!!
Mas isto, isto daria muito que escrever…e para já contento-me em dizer que sou uma pessoa de pessoas, que para mim é fascinante viver rodeada de gente – ainda que desconhecida.
Hoje fico feliz de viver rodeada de gente até calada, porque passados anos de recolha de detalhada informação a minha base de dados é rica, extensa e variada e hoje até no seu silêncio as pessoas falam comigo… Sei-as até no que fica por dizer…

A qualquer lado que vá tenho em mim uma porta aberta porque na verdade que conheço, em mim e nos outros não existem recantos…

Namaste.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O Melhor que podemos Ser

A primeira vez que ouvi falar de "self actualizing people", foi através desse verdadeiro mestre que foi Dr. Wayne Dyer. Lia eu as primeiras páginas do seu livro "I Can see clearly now" (infelizmente, tanto quanto sei, ainda não traduzido para português).
Fiquei ligada a esta ideia de "self-actualizing people", pessoas que tem uma tendência inata para serem o melhor que podem ser, inconvencionais, diferentes da maioria das pessoas, porque pensam fora dos padrões instituídos e institucionalizados. Fez eco em mim o conceito.
Identifiquei-me, de alguma forma, com aquela descrição.

Dyer definiu-as como pessoas que procuram ser o melhor que esta ao seu alcance ser, que se empenham em ser a melhor versão de si mesmas.
Imediatamente o que me perpassou o pensamento é que o mundo seria com certeza um lugar melhor se todos vivessem nessa melhor versão de si.
Cada um de nós individualmente tem um potencial por explorar, que pode fazer uma notável diferença na vida de todos nós em colectivo.
Imagina a melhor versão de ti e diz-me se não vês uma pessoa mais paciente ou mais tolerante ou mais esclarecida ou mais decidida ou mais carinhosa ou mais sociável, ou mais cuidadosa ou mais atenta ou mais satisfeita ou mais alegre ou mais magra ou mais gorda ou... o que quer que seja o melhor que esta ao teu alcance ser...
Tenho por certo que se todos nós investíssemos em ser o melhor de nós, seriamos todos pessoas mais felizes.
Pessoas mais realizadas e mais completas, são sempre pessoas mais felizes.
Então o que nos vem impedindo de ser assim? - pergunta que parece impor-se.
Várias limitações nos afastam do nosso potencial.  Todas criadas por nós, invariavelmente.
Tenhamos nós a coragem de admitir isto e metade do caminho fica feito...
Mas como admitir que podemos fazer mais por nos mesmos se, provavelmente nem estamos conscientes de nós?
Diria pois que, primeiro que tudo, é preciso que cada pessoa se entenda a si mesma, que se conheça, que olhe no espelho do seu ser e se veja.
Um espelho só reflecte o que lhe é mostrado. Mostremo-nos a nós próprios exactamente como somos e queiramos ver as nossas virtudes, os nossos pontos fortes, as nossas capacidades e talentos, vendo também com toda a honestidade os nossos defeitos, os nossos pontos fracos, as nossas dificuldades e os nossos medos...
Com isto estaremos perante a figura mais fiel de nós, não é mais um esboço, um desenho, nem uma pintura. Não é mais uma realidade retratada por alguém exterior a nós. Somos nós.
Aqui chegados é agora mais claro o que podemos melhorar, que aspectos de nós podemos elevar a outro nível, o que ainda podemos desafiar em nós, o que podemos tentar fazer diferente para chegar a um resultado melhor. Um resultado que melhor nos sirva, que nos torne efectivamente melhores seres no nosso dia-a-dia.
Enchamo-nos de coragem para matar os nossos monstros, vencer os medos que nos dominam e perceber por que porta entraram em nós.
As portas pelas quais os nossos medos acedem chamam-se crenças.
Tudo está no que nos acreditamos ser verdade.
Se acreditamos que não somos bons na nossa profissão, nunca seremos mais que razoáveis, na melhor das hipóteses!
Se acreditarmos que somos motoramente descordenados ou desajeitados nos nossos movimentos nunca tentaremos dançar ou fazer ginástica rítmica. Poderemos, eventualmente, ter deixado para trás uma brilhante carreira.
Se acreditarmos que não sabemos socializar nunca seremos boas companhias, porque estaremos  fechados em nós, num jogo de permanente defesa que nos isola de  todas as infindas possibilidades que conhecer novas pessoas nos traz...
Tudo isso em que acreditamos, acreditamos por uma razão. Temos efectivamente razões históricas para acreditar em tudo  o que acreditamos.
Foi-nos ensinado, foi-nos socialmente imposto ou induzido/introduzido no nosso subconsciente por infindos hábitos (culturais ou familiares) e processos repetitivos.
Claramente a criança a quem os pais chamavam de estúpida quando errava vai ser um adulto com uma crença ao nível da sua identidade que o faz acreditar não ser capaz.
Da mesma forma, a criança a quem foi transmitido, ainda que indirectamente, que uma profissão artística não tem futuro, crescerá com uma crença ao nível do comportamento, que fará com que não seja um adulto bem sucedido no mundo das  artes - e muito, muito provavelmente – tão pouco se dedicará ao assunto. 
Enfim, os exemplos podem multiplicar-se para dizer que o nosso sistema de crenças influi determinantemente na forma como estamos no mundo.
Então das premissas tiramos a conclusão: para chegarmos ao melhor de nós teremos que descartar as velhas crenças que já não nos servem (ou nunca serviram).
É provável que neste processo nos tenhamos reinventado e tomado uma nova forma.
Mas será a única maneira de termos a certeza que não ficaremos aquém de nos próprios.
Viver da e na nossa melhor versão, em última instancia, é um dever de gratidão para com a nossa existência.
Os "selfmade man/woman" de hoje são "self actualized people", que se "auto-fazem", começando em si a construção de um mundo melhor.
Namaste



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

EPIFANIA

A cada ano que passa há uma epifania em mim.
É tão sentida esta sensação de algo de novo ter ficado depositado no meu ser.
Caminhos cruzados e escolhas feitas e todos eles foram como que negativos revelados em mim.
Cada circunstância, momento e pessoa ficaram impressos em mim… Cada um e todos juntos me trouxeram A lição. A que tinha que ser aprendida, mesmo que eu achasse que não!
Cada pessoa, cada gesto. Céus, está tudo agora em mim, - aqui -!

Aprendo, somo, recolho, colecciono.
Eu sou a soma de todas as coisas que se deram a mim.
E a minha história faz-se do agora que vou passando.
E fecho o ano em gratidão, por tudo, sem excepção. Sentindo que em cada vai e vem eu encontrei um balanço (ou um baloiço J ).

E outro ano começa de novo. Vivo para tudo como se fosse a primeira vez, estreando o mundo com um novo olhar, com novo sentir.
Redescubro na vida a surpresa de nada saber, de nada controlar e, na verdade, de nada querer.
Que tudo venha quando assim tiver que ser.
Cheia, provida de amor por mim e pelos demais, agarro o tempo sabendo que ele não se repete e pronta para as revelações, desafios e momentos que farão a próxima epifania.
Porque o tempo não se repete e a vida também não.


Sejamos hoje tudo o que podermos ser e nunca ficaremos aquém do que aqui viemos ser.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Memórias de Fada :-)

Ontem à noite, já estava eu a agradecer tudo o que tenho na minha vida, quando me invadiu a imagem daquela saia de fada, de cetim rosa, com estrelas de papel de prata coladas, do chapéu pontiagudo feito de cartolina forrada do mesmo cetim rosa e da varinha com uma estrelinha colada na ponta de uma grande agulha de tricot…
Tinha 4 ou 5 anos, não mais e era tempo do festim escolar da Carnavalada …
No momento em que esta imagem me atravessa o espírito vem com ela uma profunda sensação de alegria e bem-estar, afinal aquela vestimenta, que fez de mim fada por um dia, era toda ela um acto de amor…
Ontem, vi-me naquela noite de véspera carnavalesca, radiante, de volta da minha mãe a examinar, com este ar expectante e ansioso (que ainda hoje me caracteriza J ), tudo o que ela fazia para conseguir costurar-me numa noite aquela saia.
Não vi muito na verdade, porque já era noite, a minha mãe e o meu pai tinham trabalhado todo o dia e para mim estava perto da hora de ir dormir!
Mas lembro-me da fita métrica, à volta da cintura e de cima a baixo e de baixo para cima e de achar tudo aquilo maravilhoso e mágico!
Apesar da tenra idade eu sabia que aquilo era um acto de magia! Estava certa!
A minha mãe encarregou-se da saia e o meu pai, que sempre foi um verdadeiro artista dos trabalhos manuais, concebeu o chapéu alto e pontiagudo, digno de uma fada à séria.
Desse não me lembro dos preparativos, mas calculo que também me tenham medido a cabeça J.
Conhecendo-me tão bem como conheço, nessa noite devo ter-me deitado com uma excitação endiabrada! Não confirmei isso ainda mas posso adivinhar a resposta.
O que me lembro mesmo é de me sentir muito feliz a ver aquela grande azáfama de final de dia por causa de uma coisa: a minha vestimenta!
Bem ou mal lá devo ter adormecido porque no dia seguinte acordei cheia de energia (lembro-me bem) e imediatamente a minha mãe me mostrou a fatiota, perguntando se gostava…
Ainda hoje sinto uma luz aquecer-me por dentro quando penso nesse momento… Estava tudo lindo…
A sainha rosa estendia-se até aos pés, tinha um elástico cosido na cintura que perfeitamente se ajustou a ela, tinha estrelinhas coladas feitas de papel de prata que a salpicavam de brilho…
O chapéu, o que outrora fora uma mera e simples cartolina era agora um cone alto e pontiagudo que ousava rasgar o céu e perfeitamente forrado com o mesmo tecido de cetim rosa!!!
E para finalizar, num acto de puro empoderamento, foi colocada na minha rechonchudinha mão direita, a varinha! Uma agulha de tricot, com uma estrela de papel na ponta, perfeitamente recortada e cintilante. Achei uma imensa graça aquele pormenor. Divertido mesmo!
Vi a alegria na cara dos meus pais quando saí de casa para ir para a escola, naquele momento de revelação da fada ao mundo e, acreditem ou não, senti o peito cheio de gratidão por tudo aquilo!
Percebi instantaneamente que os meus pais tinham feito todo aquele trabalho durante a noite, roubando de si horas de sono, para me darem um sonho…
E devo agora dizer-vos que nesse dia deram-me muito mais que o sonho, que um vestido de fada representa para uma menina de 4 ou 5 anos… Nesse dia o que eu gostei mesmo foi de sentir a dedicação e o amor que tinham feito tudo aquilo ser possível. Sim, eu senti isso. Essa energia avassaladora…E isso fez brilhar a menina fada!
Eu era a fada mas tinham sido os meus pais a fazer magia!! J
Magnífica visão a de ontem à noite… estava meio esquecida ou pelo menos há muito que não me visitava o consciente. E deixou-me tão feliz!
Percebi logo após este sentimento, que desde então nunca mais eu largara a fada e minha varinha de condão… Os meus pais tinham-me abrilhantado e empoderado para sempre…
Aquela noite deixou em mim marcas profundas que posso resumir assim: AMOR e GRATIDÃO.
Existiu em tempos uma fotografia tirada na escola nesse dia que, modestamente – posso presumir – retratou a minha alegria dentro daquele vestido.
Mas o melhor álbum é o que desfolho com o pensamento e esta memória está cristalizada em mim. De tão forte não corre o risco de ser perdida.

Grata aos meus pais, pela lição.
Bem Hajam.

Maura

sábado, 14 de novembro de 2015

Do Terror ao Amor

Este blog onde vos escrevo é  prova singela da latitute e amplitude da liberdade, no caso liberdade de expressão, nas sociedades ocidentais a que pertencemos.
Mas deixem-me usar desta liberdade para fazer jus à minha condição ocidental e, antes de mais, lamentar (mais do que condenar - quem sou eu?!!) as mortes do atentado em Paris...

Acho os atentados hediondos mas eles colocam a mancha no pano branco?!!
Não, o pano não era branco... A cultura ocidental ingere-se constantemente nos assuntos islâmicos e na sua cultura... A Guerra Civil Síria é um conflito entre fronteiras islâmicas que se agudizou com a entrada de tropas ocidentais, que fazem guerra na procura de uma paz que não é a sua.

Chegados a este ponto, os países ocidentais talvez já devessem ter percebido que estão a lidar com pessoas com crenças existenciais e culturais diametralmente díspares da que a sociedade ocidental propaga e acredita.

Assim, questiono-me se fará sentido impormos os nossos princípios, valores e crenças (ocidentais) aos povos islâmicos?! É que na verdade é isso que fazemos quando entramos no país deles a dizer: "Não queremos aqui guerra"; "queremos proteger as VOSSAS populações civis".

Eu não estou a favor do caos islâmico, mas vejo uma certa arrogância ocidental ao arrogar-se dona de uma verdade Universal...No nosso conceito de liberdade não cabe a liberdade de os deixar governar os países deles à sua maneira? De procurarem por eles próprios as suas soluções, de acordo com os seus padrões? De fazerem o seu processo evolutivo, com o nível de consciência que possuem?

Com isto não estou OBVIAMENTE a dizer que devemos deixá-los matar impunemente mas a verdade é que estamos entre um conflito de civilizações. Civilizações essas que de forma recíproca procuram prevalecer uma sobre a outra.
Coisa perfeitamente inútil porque não faz sentido ver uma civilização à luz dos princípios de outra. Ainda por cima, quando são completamente diferentes... Não são só um bocadinho, são completamente: from the bottom to the top! Tudo diferente, construídas sobre plataformas de desenvolvimento antagónicas...

O ocidente não pode vestir o casaquinho da vítima e dizer que não previu tudo isto... Isto é o preço correlativo de não os deixarmos ser o que são, nos países deles.

E estou perfeitamente à vontade para o dizer porque, ao contrário de uma larga maioria de portugueses, defendi - e defendo - a vinda de refugiados para a Europa...Eu não sou é hipócrita, de pensar que vamos lá meter-nos na Síria e isso não nos traz quaisquer consequências...


Podemos não ser consensuais, mas temos que ser coerentes: se nos queremos ingerir nos assuntos deles e salvar as populações, óptimo! EU DEFENDO ISTO, mas tenhamos a coragem de assumir os riscos inerentes. E sobretudo, preparemo-nos para eles.

Não podemos querer é chuva na eira e sol no nabal, não podemos é querer ir combater na casa dos outros e achar que entramos na nossa e que fica tudo em paz.

As diferenças são para ser respeitadas. As nossas e as deles. Já se percebeu que eles jamais quererão ser governados pelo mesmo sistema político e social que nós.

Sejamos honestos com a nossa própria civilização e admitamos que somos escravos da nossa própria liberdade.

E queremos impô-la a quem não a valoriza, a quem a dispensa...

Agora se querem um resquício de humanidade: sim, salvemos a Síria e todos os inocentes que lá vivem mas na verdade não nos façamos de vítimas porque fomos nós que lá fomos ingerir-nos...

Sim, eu sei que eles violaram todos os direitos humanos e que segundo os preceitos de Direito Internacional Privado estamos legalmente legitimados para lá entrarmos e encetarmos uma guerra em nome da paz... mas "antropologicamente" falando, fará sentido impormos o nosso nível de "evolução" a outra civilização, dentro das suas próprias fronteiras?!

Isto é a história da Siría mas podia ser a história do Afeganistão ou de qualquer outra estado islâmico... Isto é um confronto de civilizações puro e duro.
Um peixe nunca trepará a uma árvore. Um peixe nunca será macaco.

O BEM SEMPRE PREVALECERÁ, MAS NÃO PODE SER IMPOSTO, PORQUE QUANDO O É TORNA-SE TÃO MAU COMO O MAL.


Namaste.